04 junho, 2010

Variações sobre um mesmo tema III

Sempre gostei de perturbar meu tio (irmão do meu pai). Eu não o respeitava como os outros tios, pelo fato de que ele era um crianção.Ele morava ao lado da minha casa, com meu avô, e eu sempre estava lá pedindo doces a ele.
Era bem mais divertido pedir coisas para ele, que pedir ao meu avô ou aos meus pais. Primeiro porque meu tio, pão duro que era, me fazia insistir horas e horas. Segundo porque com ele era diferente, quando ele recusava dizia "Não tenho" (eu sabia que tinha, e aí fui acostumando com as mentiras dele.); já meus pais vinham com algo como "doces estragam dentes", era uma chatice.
Por mais que eu tivesse muitos doces eu ia pedir mais. Ele dizia que não tinha, eu insitia, até ele pegar. Tinha dias que eu insistia, mas ele ficava firme e aí eu tinha que apelar e dizia: "Se o senhor me der, juro não aparecer aqui por uma semana", é claro que ele caia nas minhas conversas, sempre eu o convencia e não cumpria o prometido.
Há cada convencimento uma felicidade, como se tivesse ganhado uma guerra. Eu adorava ganhar dele, e era uma luta de igual para igual; o fato dele ser "adulto" e eu a criança não me intimidava; ele não se comportava com o fato de eu ser uma criança e nem eu por ele ser um adulto.
Minhas conquistas eram incessantes. Meu maior prazer era ter prazer de convencê-lo.
Ele não gostava que entrassem no quarto dele, eu entrava. Aos poucos fui percebendo que ele guardava 'segredos' e eu ia ameaçando abrir o guarda-roupa e procurar doces.
Certo dia, descobri que ele guardava muito dinheiro no quarto (nunca me interessou; só queria saber de moedas.) e uma arma (ele é Policial Militar), morria de medo e nunca quis tocar em nada.
Ao lado do guarda-roupa tinha uma cadeira, eu ameaçava subir pra ver se encontrava balas, e ele se desesperava. Um dia resolvi ver o que tinha, entrei escondido e vi várias camisinhas, desci e fiquei satisfeita por ter visto o que tinha lá (mesmo não sabendo o que seria aquilo).
Eu sabia os lugares que ele guardava as coisas, mexia em tudo. Tinha medo do meu pai ficar sabendo disso. Não tinha medo de meu tio, eu sabia que se ele me batesse todos estariam contra ele. Ele sabia que eu era esperta, mas aposto que não sabia o grau da minha esperteza.
Ao entrar na adolescência, já não frequentava muito a casa dele, meu pai não deixava e eu já não gostava de ir até lá. Nesse momento descobri que meu tio ia ser o mesmo menino de anos atrás, e que eu iria crescer e sentir que eu era a adulta e ele a criança.
E assim guardo lembranças...

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