04 junho, 2010

Almas




Em dias azuis, amarelos, vermelhos, cinzas... em qualquer cor do dia ou em qualquer dia de cor, vivemos somando e subtraindo almas. Almas 'tanto faz', almas 'muito faz', almas 'meio faz', e almas 'nada faz'.
As almas 'tanto faz' são aquelas, as quais você não se importa em não poder contar com elas; nem se importa se passar meses sem vê-los ou saber notícias. Ter a companhia delas é bom, elas te ensinam; você não perde nada se falar com elas, mas ganha pouco e é assim... tanto faz.
Já as 'muito faz', você sente a ausência rapidinho. Você lembra delas  quando vai ver um filme, ler um texto, ouvir uma música, lembra até mesmo não fazendo nada. Por umas dessas, você sente amor; por outras não é amor, mas é apreço.
O que admira é o fato de algumas almas durarem uma vida nas vidas de pessoas e continuarem 'tanto faz', e outras durarem uma semana e serem o 'muito faz'.
Para atingir o âmago de um coração é necessário seduzir, digo, encantar naturalmente, e isso na maioria das vezes vem rápido, se demorar de vir rapidamente virará uma alma 'meio faz'.
Gosto das almas 'meio faz', mas preferia que elas não existissem. Talvez, sejam elas que mais demonstram afeto por mim, mas essa coisa de estar em cima do muro é irritante. Não é bom comentar sobre elas, muita gente se identificará; só posso dizer que essas almas podem ficar alternando entre o 'muito faz' e o 'tanto faz', geralmente preferem o 'tanto faz'.
Não gosto das 'nada faz', e isso é óbvio, nem falo com elas. Elas não atingem o centro, e nenhum dos lados do meu coração. Também são pessoas úteis para aprender, mas pra conviver... argh!
Gostaria de ser alma 'muito faz' para muita gente, mas minha personalidade não permite.
Aqueles que atingem meu coração, são pessoas lindas, que entendem coisas que eu gostaria que entendessem. Não são pessoas poucas, são pessoas muitas. São poucas pessoas muitas.

Pré-vitória



Há algumas coisas que não entendo e isso é bom. Não entender dá um gostinho maior, sinto vontade de entender e fico nos meus infinitos pensamentos.
Vai e volta, vai e volta... paro, penso e volto. Não entendo. Sou menos inteligente por não entender?
O desespero e o desassossego de ser alguém que não entende é frustrante, é como se tivesse comida e não tivesse boca para comer; é como se soubesse dos fatos e não tivesse argumento para crer.
Como alguém pode amar outrem o qual o maltrata? Não entendo.
Não entendo o vazio das pessoas cheias. Não entendo o vazio das pessoas vazias. E porque quero entender? Não entendo.
Entender é uma vitória. Não entender é uma pré-vitória. A pré-vitória pode durar muito tempo e todo esse tempo será cheio de emoção; a vitória dura poucos minutos e perde a graça.
Não entender é frustrante, é interessante, é uma pré-vitória.

Variações sobre um mesmo tema III

Sempre gostei de perturbar meu tio (irmão do meu pai). Eu não o respeitava como os outros tios, pelo fato de que ele era um crianção.Ele morava ao lado da minha casa, com meu avô, e eu sempre estava lá pedindo doces a ele.
Era bem mais divertido pedir coisas para ele, que pedir ao meu avô ou aos meus pais. Primeiro porque meu tio, pão duro que era, me fazia insistir horas e horas. Segundo porque com ele era diferente, quando ele recusava dizia "Não tenho" (eu sabia que tinha, e aí fui acostumando com as mentiras dele.); já meus pais vinham com algo como "doces estragam dentes", era uma chatice.
Por mais que eu tivesse muitos doces eu ia pedir mais. Ele dizia que não tinha, eu insitia, até ele pegar. Tinha dias que eu insistia, mas ele ficava firme e aí eu tinha que apelar e dizia: "Se o senhor me der, juro não aparecer aqui por uma semana", é claro que ele caia nas minhas conversas, sempre eu o convencia e não cumpria o prometido.
Há cada convencimento uma felicidade, como se tivesse ganhado uma guerra. Eu adorava ganhar dele, e era uma luta de igual para igual; o fato dele ser "adulto" e eu a criança não me intimidava; ele não se comportava com o fato de eu ser uma criança e nem eu por ele ser um adulto.
Minhas conquistas eram incessantes. Meu maior prazer era ter prazer de convencê-lo.
Ele não gostava que entrassem no quarto dele, eu entrava. Aos poucos fui percebendo que ele guardava 'segredos' e eu ia ameaçando abrir o guarda-roupa e procurar doces.
Certo dia, descobri que ele guardava muito dinheiro no quarto (nunca me interessou; só queria saber de moedas.) e uma arma (ele é Policial Militar), morria de medo e nunca quis tocar em nada.
Ao lado do guarda-roupa tinha uma cadeira, eu ameaçava subir pra ver se encontrava balas, e ele se desesperava. Um dia resolvi ver o que tinha, entrei escondido e vi várias camisinhas, desci e fiquei satisfeita por ter visto o que tinha lá (mesmo não sabendo o que seria aquilo).
Eu sabia os lugares que ele guardava as coisas, mexia em tudo. Tinha medo do meu pai ficar sabendo disso. Não tinha medo de meu tio, eu sabia que se ele me batesse todos estariam contra ele. Ele sabia que eu era esperta, mas aposto que não sabia o grau da minha esperteza.
Ao entrar na adolescência, já não frequentava muito a casa dele, meu pai não deixava e eu já não gostava de ir até lá. Nesse momento descobri que meu tio ia ser o mesmo menino de anos atrás, e que eu iria crescer e sentir que eu era a adulta e ele a criança.
E assim guardo lembranças...

Variações sobre um mesmo tema II

Sempre fui esperta (tenho medo disso), mas também sempre fui muito boba. Esperta no sentido de sempre achar tudo que minha mãe escondia; esperta porque sempre descobria os segredos da minha irmã, sabia exatamente o que iria ganhar de presente de aniversário (deve ser por isso que, hoje, minha mãe prefere não guardar segredos). Boba? Sim, muito. Como se chama uma pessoa que olha cachorros e fica com os olhos brilhando? Eu sei que há uma analogia entre o bobo e o esperto, talvez seja o fato deles serem uma mesma pessoa.
Sim! Vivia lendo as coisas que minha irmã escrevia no diário, isso era ridículo, é certo que eu não sabia o significado do termo 'invasão de privacidade'. Eu só queria entender porque ela o escondia debaixo do colchão, e acabei virando uma leitora assídua.
Minha mãe gostava de comprar revistas e tinha algumas partes que crianças não podiam ver. Eu, no lugar de minha mãe arrancaria as páginas e daria fim. Sabe o que ela fazia? Colava ou grampeava uma na outra, ela achava que isso evitaria que nós olhássemos. Eu ficava mais curiosa, sempre tentava ver o que era, na maioria das vezes era algo relacionado com sexo, fechava e nem lia; era assustador ver a palavra "sexo".
Ninguém sabia que eu sabia de várias coisas, e isso era a maior aventura: Ter conhecimento de algo (mesmo sendo tolo) e não poder contar. Queria ter contado essas coisas, se contasse iria me trair e sempre fui fiel a mim mesma.

Variações sobre um mesmo tema I

Numa promiscuidade, meus pensamentos vão correndo léguas e lembrando da capetinha anjo que fui. Eu não era uma criança danada, era curiosa, tudo queria saber.
Em umas das minhas aventuras (não foi uma guerra, nem escalar o Everest) suei muito, mas matei a curiosidade.
Havia três quadrinhos de corações com orações, eram fofos e por isso chamava minha atenção. Dois deles eu podia orar, o outro não, o desenho explicava bastante que aquilo não era para minha idade. Todos os dias que ia orar ficava mais curiosa para saber o conteúdo daquela oração, mas tinha medo de cometer um pecado.
Passaram semanas e resolvi ler. Li rápido, às vezes desviando o olhar e pondo-se a olhar para a porta. Tensão, todos os ruídos eram motivos para ficar aflita; foram os três minutos mais densos daquele dia.
O conteúdo da oração? O mais tolo possível; pedia proteção para o namorado e outras coisas bestas, eu nem sonhava em ter um. Depois disso me senti idiota por ter demorado tanto para ver uma coisa tão tola, e aí decidi que não iria demorar tanto para matar minhas curiosidades.